O quarto de uma criança com PEA: Quando o design transcende a decoração

Frequentemente, quando planeamos e decoramos um quarto para uma criança, damos prioridade ao que o adulto considera esteticamente agradável supondo estar a apelar ao gosto e a agradar a criança, mesmo ignorando o efeito das nossas escolhas na própria criança. Isso, por sua vez, pode gerar espaços não funcionais, desadequados em termos de necessidades, preferências e tolerâncias da criança, podendo mesmo contribuir para estados de ansiedade. Quando falamos de crianças com uma Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), o planeamento e design dos seus espaços revelam-se, ainda, mais cruciais.


Crianças com PEA, possuem perfis sensoriais muito específicos pelo que devem ser cuidadosamente considerados. Ao planear um quarto para o seu filho, deve considerar como o espaço poderá afetar a sua regulação emocional.




As cores predominantes no quarto devem ser o mais neutras possíveis. Devemos evitar cores vibrantes, especialmente em zonas do quarto onde é desejável que a criança se mantenha serena, como a área de dormir. Se quisermos acrescentar tons de destaque ou contraste, é importante que essa escolha seja feita de acordo com a preferência individual da criança.




No seguimento da escolha de cores, a iluminação interfere com o sentido de visão. Embora todas as crianças tenham preferências diferentes, devemos favorecer a iluminação natural ou candeeiros de baixa intensidade. A utilização de luzes fluorescentes ou brancas é desaconselhada.




Todas as casa estão repletas de ruídos que naturalmente vamos criando habituação e nos passam despercebidos. No entanto para uma criança com PEA o som é amplificado e esta tarefa de discriminar os estímulos importantes dos acessórios poderá ser difícil. Passos em piso de soalho, eletrodomésticos perto das paredes dos quartos, equipamentos de ar-condicionado, ou até o simples ruído alguns relógios, podem ser desconfortáveis e fonte de ansiedade. Neste sentido, devemos proteger o quarto deste tipo de sons externos. Caso não seja possível eliminar por completo o ruído, podemos recorrer a tapetes, cortinas ou outros tecidos como amortecedores acústicos para abafar a ressonância do som.




Os cheiros que para muitos trazem um sentido agradável de limpeza e bem-estar, para outros podem ser incomodativos ou até intoleráveis. Devemos ter em atenção não só os ambientadores, velas ou incensos mas até os resíduos de cheiros deixados por detergentes nas roupas e lençóis e produtos utilizados na limpeza da casa.




A reatividade face às textura das roupas e tecidos é igualmente importante. A roupa de cama e acessórios do quarto como mantas, tapetes e toalhas devem ser cuidadosamente escolhidas de acordo com a preferência da criança. Sempre que possível deve-se optar por tecidos naturais, especificamente o algodão. Em certos casos, os cobertores/mantas pesadas podem ​​ser uma ótima opção reconfortante na hora de dormir.




Haverá certos momentos em que a criança poderá ter necessidade de um espaço especificamente criado para potenciar a exploração sensorial e autorregulação. Para alguns poderá ser um canto com estímulos sensoriais como um tapete ou mural, e para outros poderá ser um refúgio de estímulos como uma tenda, baloiço ou rede. Também aqui a escolha dos elemento que compõem este espaço deverá ser feita de acordo com o perfil sensorial de cada criança.




Na maioria das crianças com PEA, a implementação de rotinas e de uma organização bem definidas é muito importante. Os espaços da casa devem estar bem definidos, seguindo um sistema de organização e lógica para promover a harmonia e independência da criança.



A elaboração e planeamento de um quarto, ou até de uma casa adaptada a uma criança com PEA deve ser elaborado considerando o perfil de cada criança. O design deve ser trabalhado com uma equipa multidisciplinar e experiente que avalie o contexto familiar, as preferências, tolerâncias e necessidades sensoriais e emocionais da criança para que efetivamente traga o bem estar e harmonia ao lar.


Sara Arieiro

Licenciada em Psicologia

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