Primeiras palavras: o que esperar e quando nos devemos preocupar

No primeiro ano de vida a aquisição das primeiras palavras é um marco de grande importância no desenvolvimento da criança. Porém, é possível que não surjam até aos 12 meses, apesar de outros domínios do desenvolvimento global aparentarem estar ajustados à idade. Quando tal se verifica, podemos estar perante uma situação em que a criança é um falante tardio, mas nem sempre!





Com frequência, observamos a lógica do “esperar para ver” na esperança de que a criança comece a falar, caindo na tentação de argumentos como “cada criança tem o seu ritmo”, “ele não fala porque é preguiçoso”, “os rapazes falam mais tarde que as meninas”, entre outros. No entanto, a avaliação precoce torna-se fundamental no sentido de compreender o mais cedo possível a necessidade ou não de intervenção terapêutica.


A designação “falante tardio” (do inglês “late talker”) corresponde a uma criança entre os 18 e os 30 meses que apresenta boas competências de compreensão de linguagem e de outros domínios do desenvolvimento global, estando a dificuldade restrita à linguagem expressiva, na medida em que a criança produz um número restrito ou nulo de palavras. Esta designação não está imediatamente associada a situações clínicas como paralisia cerebral, perturbação do espetro do autismo, atraso global do desenvolvimento, síndromes e outras perturbações do neurodesenvolvimento. No entanto, o atraso ao nível da fala constitui um sinal de alerta de algumas destas patologias sugerindo uma avaliação especializada.


A investigação demonstra que a maioria dos falantes tardios consegue recuperar de forma espontânea, desenvolvendo gradualmente competências linguísticas e equiparando-se aos pares por volta dos 6 anos de idade. Estas crianças, cuja evolução é positiva, podem apresentar ainda assim alguma fragilidade (e não necessariamente atraso clínico) ao nível da linguagem mais complexa, assim como da morfossintaxe por volta desta idade.


A investigação também reconhece a dificuldade de prever a evolução positiva ou negativa das competências linguísticas do falante tardio. A evolução negativa pode estar associada à presença simultânea de alguns fatores de risco que importa sublinhar:

· A criança era muito silenciosa enquanto bebé e sempre produziu poucos sons

· Apresenta historial de otites

· Produz um leque restrito de consoantes

· Não imita sons e palavras

· Produz maioritariamente nomes e poucos verbos

· Tem dificuldades de interação e da comunicação

· Utiliza poucos gestos para comunicar

· Tem poucas ideias ao nível do jogo

· Apresenta algumas limitações ao nível da compreensão da linguagem

· Tem historial familiar de atraso ou dificuldades na comunicação, linguagem ou aprendizagem


O facto de a fala ser o único domínio em atraso, por comparação com as restantes áreas de desenvolvimento, contribui muitas vezes para que a procura de ajuda especializada seja tardia. Além disso, persiste também a ideia de que a terapia da fala só é indicada e/ou só tem resultados a partir dos 3/4 anos de idade, sendo um obstáculo a uma intervenção atempada e eficaz.


Lúcia Magalhães

Terapeuta da Fala

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