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    O pesadelo das refeições: Será normal e como intervir?

    Para a maior parte de nós comer é uma experiência extremamente prazerosa, mas para as crianças que lutam com as casca das maçãs, com os pequenos grãos de arroz, com a carne picada misturada com a massa ou mesmo com os pequenos fiozinhos que apanham na sopa, comer pode ser muito frustrante e mesmo uma experiência dolorosa!







    Comer é a atividade mais complexa do ser humano. É a única que requer todos os sistemas orgânicos, e que requer que todos esses sistemas trabalhem corretamente. Para além disso, todos os músculos do corpo estão envolvidos, além de que comer é a única atividade que as crianças fazem que requer coordenação simultânea dos 8 sistemas sensoriais (visão, audição, olfacto, gosto, toque, vestibular, propriocetivo, interoceptivo). Aprender, desenvolver e nutrir também têm de ser integrados para ter a certeza que a criança come corretamente.


    Já não sei quantas vezes ouvi a expressão “Isto é muito difícil” ou “Eu não consigo comer isto” sair da boca de uma criança com problemas de alimentação, enquanto os tentamos encorajar a comer. Comer pode ser tão difícil quanto escalar uma montanha se os músculos da criança não são fortes o suficiente para trincar e mastigar os alimentos sem se cansar, ou se ela não for capaz de lidar com a sensação do sentir da comida nas mãos e na boca.


    Para a maior parte de nós, as refeições são uma experiência prazerosa. A variedade de cheiros, sabores e texturas desencadeia a libertação de neurotransmissores no cérebro que contribuem para a sensação de bem-estar, e encher o estômago cria uma sensação de saciedade e satisfação generalizada. O que pode afinal correr mal? Bem, qualquer pessoa que conheça um “picky eater”, especialmente se for pai de um, sabe que as refeições podem ser tudo menos momentos agradáveis. De facto, crianças com alterações sensoriais lutam com todos os tipos de texturas, no corpo, nos pés, nas mãos e na boca, especialmente no que diz respeito à comida.


    Os chamados “picky eaters”, ou seja aquelas crianças que se recusam a comer, ou que têm um reportório reduzido de alimentos, ou que consomem excessivamente apenas alguns alimentos podem ter vómitos frequentes enquanto comem ou mesmo enquanto estão a ver outros a comer, e tendem a lamber e morder a comida mais do que mastigá-la.Crianças com desenvolvimento típico normalmente ultrapassam a fase de afastar a cara do prato, mas as crianças com alterações sensoriais normalmente têm mais dificuldade e podem mesmo precisar de ajuda extra.


    Consegue imaginar alguém que recuse comer qualquer outra coisa além de nuggets ou batatas fritas do Macdonald´s? Difícil não é? Mas a verdade é que existem e cada vez mais. Crianças com estas dificuldades tendem a lutar com a textura da comida mais do que com o cheiro ou o sabor. Os alimentos moles estão no topo da lista das comidas desafiantes, como sejam o puré ou a banana. Numa tentativa de minimizar o desconforto de comer tudo o que lhes é apresentado no prato ou mesmo por incapacidade de equilibrar os seus limites, podem tentar engolir pedaços de comida que são demasiado grandes ou em casos mais sérios chorar, gritar e recusar completamente.


    Por outro lado a criança pode não ter estabilidade postural suficiente que lhe permita usar os lábios, e a língua e os dentes, para adequadamente trincar, mastigar e passar os alimentos de um lado para o outro da boca até estarem preparados para serem deglutidos. Este problema acontece também em crianças com baixo tónus muscular nas bochechas e mandíbula, tornando o mastigar difícil e frustrante.


    Todas as informações sensoriais presentes numa refeição, como sejam a textura da cadeira, o barulho dos talheres no prato, a gota de sopa que caiu na mesa são demasiado difíceis de gerir quando a criança tem à sua frente um prato com comida que não sabe se é capaz de colocar na boca. As suas emoções podem levar a comportamentos desadequados e com isso dizemos birras à mesa com recusa de comer a comida que foi preparada para eles, tornando o que podia ser uma experiência agradável em família num verdadeiro pesadelo. Mas para estas crianças sentar-se para uma atividade que é desconfortável, como é comer, é stressante o suficiente sem ter que acrescentar a pressão de um contexto formal.


    Infelizmente para alguns comer pode ser um desafio demasiado grande, e por vezes é mesmo preciso ajuda para aprendermos as preferências e os limites das crianças, de forma a tornar as refeições em prazer e as barrigas em satisfação!


    Terapeuta Ocupacional

    Inês Guedes

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