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    Perturbação do Espetro do Autismo, que método de intervenção é mais adequado?

    O diagnóstico de um Quadro do Espetro do Autismo de um filho é sempre acompanhado de grande sofrimento, gerando inúmeras preocupações e dúvidas não só acerca do futuro mas também em relação ao (o que fazer) agora. Fica a cargo dos pais a decisão difícil de escolher a metodologia de intervenção e os terapeutas mais adequados, que assegurem a máxima evolução possível das competências da criança. Mas como saber qual a metodologia mais acertada para o meu filho quando é a primeira vez que estou nesta situação?





    Das questões que me são colocadas mais frequentemente quando as famílias chegam à minha consulta de avaliação é a qualidade e adequação dos vários métodos de intervenção elaborados especificamente para crianças com Perturbação do Espetro do Autismo. A informação disponibilizada, nomeadamente na internet e redes sociais é tão abundante quanto contraditória dificultando uma decisão que se constitui tão importante. Irei neste artigo abordar muito sucintamente os aspetos mais relevantes de algumas abordagens frequentes em Portugal, mas antes queria salientar quatro pontos que considero serem de extrema importância independentemente do método que possam escolher.


    1. Ser acompanhado pelo médico de especialidade: é fundamental que a família eleja um médico de referência na área do autismo, em quem confiem, que acompanhe o processo clínico da criança, em ambas as fases de avaliação ou terapêutica. Este médico poderá ser Pediatra do Desenvolvimento ou Pedopsiquiatra, consoante as necessidades específicas da criança.


    2. Gostar dos terapeutas: iniciando o processo de intervenção, é extremamente importante que a família, e não só a criança, construa uma relação de confiança e segurança com os terapeutas intervenientes no processo. Na maioria dos casos, são processos longos que pressupõem a partilha de momentos altamente emotivos, uns positivos outros mais angustiantes, aliado à necessidade de um “abrir as portas” de casa e escola para que os terapeutas possam intervir e ajudar onde efetivamente residem as dificuldades no dia-a-dia da família e da criança. Assim, ter boas referências de determinado terapeuta pode não ser suficiente para salvaguardar o sucesso da intervenção, sendo igualmente importante garantir um trabalho de colaboração estreita entre pais e técnicos.


    3. Assistir às sessões: infelizmente e apesar dos avanços já realizados no que respeita aos apoios e intervenção terapêutica com estas crianças, ainda dou por mim a ter necessidade de sinalizar este ponto que se revela crucial. No seguimento do já explanado no ponto anterior, seja qual for a metodologia a seguir, a colaboração e participação dos pais revela-se um fator decisivo para o sucesso da intervenção. Assim, quando falamos em crianças com uma Perturbação Global do Desenvolvimento, nomeadamente Autismo, as sessões terapêuticas, seja no âmbito da psicologia, terapia da fala ou terapia ocupacional, deverão sempre contar com a presença de pelo menos um dos pais de forma a que garanta a participação dos mesmos nas sessões e a continuidade da implementação das estratégias estipuladas nos contextos naturais da criança.


    4. Garantir a articulação entre todos os intervenientes: idealmente o processo terapêutico a nível clínico deverá, sempre que possível realizar-se com a mesma equipa técnica, mas diversos fatores podem-se conjugar impedindo esta opção. Por seu lado, para além dos terapeutas a criança terá muito provavelmente outros intervenientes no processo, como por exemplo os educadores ou professores, que assumem igual importância nestas situações. Deste modo, é fundamental que a atuação e objetivos estipulados estejam em sintonia e conformidade em todos os contextos da criança de forma a otimizar a sua evolução. Assim, é aconselhável que a elaboração e implementação do plano de intervenção seja realizado em equipa alargada, contando com a participação da família, dos intervenientes educativos (educadores ou professores) e terapeutas.



    No que se refere aos modelos e programas de intervenção, irei mencionar os modelos de intervenção mais frequentes em Portugal, procurando apenas dar a conhecer a sua existência e fazendo menção às suas principais características. Quem me conhece sabe que por princípio identifico-me e trabalho essencialmente com base no Floortime sempre em contexto de equipa multidisciplinar, no entanto, cada criança tem as suas necessidades especificas pelo que por vezes pode haver a necessidade de conjugar estratégias de diferentes modelos. Assim, reforço que todos os modelos foram elaborados e pensados com o intuito de serem uma mais valia na vida das famílias que vivem com o Autismo diariamente, pelo que cada uma deverá também procurar e eleger a que mais se adequa às suas necessidades e perfil. E claro, sempre que possível procurar garantir os 4 pontos acima referidos.


    Modelo ABA (Applied Behavior Analysis):

    Este modelo tem por base uma abordagem comportamental e, portanto, a aplicação de métodos de análise comportamental para elaborar os objetivos de intervenção que se prendem com a modificação de comportamentos. Defende poder ser aplicado em idades precoces até à vida adulta, sendo em contexto individual o mais frequente, mas podendo também ser implementado em grupo, consoante as necessidades.


    Programa Son-rise:

    Programa elaborado por pais de uma criança inicialmente com diagnóstico de Autismo, procuram fornecer um método de intervenção específico e compreensivo onde em colaboração com a família pretendem promover competências de comunicação e aprendizagem. Por princípio, é geralmente implementado no contexto de domicílio.


    Floortime:

    O Floortime, baseado no Modelo DIR, e elaborado pelos pedopsiquiatras Stanley Greenspan e Serena Wieder, constitui-se como um modelo de intervenção relacional. Ou seja, trata-se de uma intervenção realizada através do brincar com o objetivo primordial de promover as competências base que constituem a raiz das dificuldades de um quadro de Autismo: a relação e interação, a comunicação e a regulação emocional. Pode ser implementado em contexto clínico ou domicilio e geralmente é realizado em parceria com intervenção em Integração Sensorial, pela valorização que lhe atribui.


    Modelo Denver (ESDM)

    Modelo que procura atuar através do jogo e da relação criança-terapeuta, é especialmente desenhado para crianças entre os 12 e os 48 meses, podendo estender-se até os 5 anos. Tem por base os modelos de desenvolvimento infantil transacional e construtivista, e geralmente é desenhado para ser implementado no contexto de domicílio.


    Programa TEACCH

    Programa educativo elaborado pelo psicólogo Eric Shoppler e a sua equipa na Universidade da Carolina do Norte, é essencialmente um programa de ensino estruturado tendo como objetivos primordiais o fornecimento de estratégias e ferramentas para os contextos educativos no sentido de promover a adaptação e aprendizagem das crianças e jovens com Autismo.



    Sara Barbot

    Psicóloga Clínica

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