A importância e benefícios do gatinhar

Gatinhar é um dos marcos do desenvolvimento psicomotor expectável que ocorra no primeiro ano de vida. Os bebés começam por ser capazes de levantar a cabeça, mexer os braços e as pernas, rolar e sentar-se e só posteriormente é que estão preparados para gatinhar. Assim, esta competência surge, geralmente, entre os 7 e os 10 meses, fruto da necessidade e curiosidade dos bebés em explorar o ambiente. Mas nem sempre acontece.



Como Terapeuta Ocupacional, uma das questões que faço sempre quando estou a obter informação acerca da história de desenvolvimento é a de se a criança gatinhou ou não. Isto porque o ato de gatinhar é o resultado de uma série de sensações provenientes dos sistemas sensoriais a conjugar-se. Aquando do gatinhar estão subjacentes as capacidades de planeamento motor, sequenciação dos movimentos, coordenação bilateral e muito mais! Vamos então aos benefícios de gatinhar:


- Desenvolvimento de estabilidade (“suporte muscular”) das articulações: gatinhar ajuda a desenvolver os músculos e as articulações não só da zona central do corpo (barriga, costas, pescoço, coxas) como também dos ombros e, claro, todo o braço. Assim, há uma maior base de suporte para o desenvolvimento de competências motoras grossas – e também finas! Isto porque, o desenvolvimento das competências finas depende da interação de todas as articulações dos membros superiores.


- Desenvolvimento do controlo postural: assim que os bebés são capazes de realizar a co-contração, ou seja de ativarem determinados músculos para obter estabilidade e controlo, podem começar a experimentar balançar-se para os lados ou para a frente e para trás. Aí, terão desenvolvido controlo postural suficiente para que possam retirar, à vez, uma mão do chão e gatinhar.


- Prática de transferências de posição: ser capaz de mudar de posição é uma grande aquisição, pois desta forma os bebés podem explorar e brincar. Além disso, desenvolvem movimentos dinâmicos, como a rotação e a inclinação, necessários ao gatinhar e outras competências mais tardias, como atirar uma bola, trepar, nadar.


- Desenvolvimento de competências de coordenação bilateral: ao gatinhar, o bebé move ora o braço esquerdo e a perna direita, ora o oposto. Numa primeira fase de forma descoordenada mas, com a prática, consegue-o de forma harmoniosa. Começa a desenvolver-se, assim, a coordenação bilateral, importante para as tarefas em que se usam os dois lados do corpo, ou seja, praticamente todas as do nosso dia-a-dia!


- Desenvolvimento do sentido de ritmo, espaço e tempo: gatinhar é um padrão ritmado, em que dois membros se movem enquanto os outros estão parados, por forma a se conseguir um movimento eficiente e coordenado. À medida que isto ocorre, os bebés experienciam o espaço e o tempo, quando comparam o ato de movimento com o de estar parado. Estas noções temporais e espaciais ajudam ao desenvolvimento de ações futuras como andar e correr de forma eficiente, controlada e rítmica.


- Desenvolvimento da motricidade fina: aquando do gatinhar, as crianças estão a fortalecer os músculos dos braços, das mãos e dos dedos. Desenvolvem-se os arcos das mãos, o que possibilita ajustar a preensão ao tamanho do objeto e a força de preensão necessária à atividade. Tudo isto é importante para que, no futuro, a criança consiga abotoar, recortar e tenha uma preensão eficiente do lápis. Aliás, a literatura diz-nos que a preensão eficiente do lápis é significativamente maior em grupos de crianças que gatinharam.


- Desenvolvimento do sistema visual: ao gatinhar, os bebés desenvolvem competências visuais, conseguindo focar melhor no que vêm, já que são mais capazes de ajustar os olhos à medida que observam o ambiente, trabalhando a convergência e a divergência ocular. Assim, uma criança que não tenha gatinhado pode ter dificuldades a apanhar bolas, ler, escrever e copiar do quadro, pois a capacidade de mover os olhos para o lado ou para cima/baixo é importante para a visão binocular, que ocorre quando os olhos trabalham juntos e nos permitem ver uma só imagem.

Além disso, o gatinhar ajuda a desenvolver a perceção visual, que nos ajuda a interpretar as propriedades do que vemos: as coisas são grandes/pequenas, lisas/irregulares, estão longe/perto, direitas/de pernas para o ar? Assim desenvolve-se a perceção de profundidade (incluindo distâncias e alturas) e, portanto, a noção espacial e, por conseguinte, do perigo.


- Desenvolvimento do sistema tátil: ao gatinhar os bebés vão poder explorar mais e conhecer espaços e objetos com características diferentes na sua textura, temperatura, forma e tamanho, permitindo-lhes integrar as diferentes sensações táteis e ajudá-los na sua discriminação e manipulação.


- Desenvolvimento do sistema vestibular: é ainda importante falar do sistema vestibular, que ajuda o corpo a perceber a gravidade, o movimento e a desenvolver o equilíbrio, sendo estimulado quando os bebés balançam. Os inputs vestibulares ajudam a desenvolver um tónus adequado, o controlo postural e ainda competências visuais, dado estar intimamente ligado a este sistema sensorial.

A capacidade de receber e processar as múltiplas informações sensoriais ajuda os bebés a criar um mapa mental do seu corpo, para que possam planear de forma eficaz movimentos à medida que aprendem novas competências motoras.


- Desenvolvimento do esquema corporal e do planeamento motor (PM): o PM é o processo que nos permite adaptar a uma tarefa não familiar e aprender a como fazê-la automaticamente. Para um bom PM é necessário um bom esquema corporal. Quando um bebé começa a gatinhar necessita de prestar atenção ao seu corpo e ao seu redor, pensando de forma consciente em como coordenar os seus movimentos. Quando o movimento já não requer esforço consciente torna-se uma competência motora. Quando há um bom esquema corporal, este processo é simples, mas caso contrário torna-se difícil aprender novas competências motoras, porque não se recebe a informação correta dos sistemas sensoriais.


- Interação social: uma vez que se podem deslocar, os bebés começam a procurar os seus cuidadores e outras pessoas, para interagir.


Portanto: sim, mesmo que o gatinhar surja depois do andar, é bom encorajar!


Diana Morais

Terapeuta Ocupacional

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