"Como foi o teu dia?" Dicas para ajudar as crianças a conversar

Conversar por si só é uma atividade exigente que implica muitas etapas e “regras”, desde começar a conversa, turnos de interação, manter-se no tópico mostrando interesse no outro, compreender e interpretar pistas sociais, explorar o tópico com perguntas e comentários, e saber quando terminar. Uma das preocupações mais comuns partilhadas pelas famílias refere-se à dificuldade da criança em conversar, nomeadamente em contar o que fez ao longo do dia no jardim-de-infância. Na maioria das vezes, a criança responde com um “não sei”, com frases feitas como “brinquei com os amigos” ou desiste sem dar qualquer resposta e a conversa não acontece…





Na situação em que pedimos para recontar algo que fez ou viu, a criança até pode compreender a pergunta, contudo a maior dificuldade passa pela elaboração de uma resposta. De facto, recontar um acontecimento é uma atividade bastante complexa que implica memória, organização e sequenciação dos acontecimentos e das ideias, assim como a evocação e produção das palavras necessárias para transmitir a mensagem em frases bem estruturadas. Tais desafios são acrescidos quando a criança apresenta dificuldades comunicativas e linguísticas.



Neste sentido, sugerimos algumas orientações no sentido de ajudar a criança a participar na conversa:


· Estar disponível para conversar tranquilamente com a criança, dando-lhe tempo e procurando que não exista elementos distratores para ambos;


· Dar tempo à criança antes de a abordar com muitas perguntas. Ao colocar muitas perguntas, a criança poderá sentir-se pressionada para falar, diminuindo o interesse por algo que deve de acontecer de forma o mais natural e prazerosa possível


· O adulto pode começar por partilhar algo que tenha acontecido no seu dia de trabalho para iniciar e encorajar a conversa. Mostrar como se conversa é sempre um bom ponto de princípio para ajudar a criança;


· Num mundo em que existe pouco tempo, o adulto pode tirar proveito das rotinas mais tranquilas e prazerosas para ambos, conversando sobre o que está acontecer e dando o mote para a criança conversar também. Lembre-se que a motivação e o prazer da criança são determinantes para o seu envolvimento em qualquer atividade;


· Ter atenção à linguagem não-verbal da criança (olhar; expressão facial) e ao seu estado emocional e partir daí para iniciar a conversa, como por exemplo, “Estás triste… O que aconteceu?


· Substituir perguntas abertas como “O que fizeste na escola hoje?” por perguntas mais fechadas do tipo “Quem é que brincou contigo hoje?”. Ao colocar perguntas abertas, a criança terá muito que dizer em relação a um período de muitas horas no jardim-de-infância, sendo mais fácil desistir da conversa ou recorrer aos chavões “brinquei com os amigos” como descrito anteriormente. Por outro lado, as perguntas fechadas ajudam a criança a selecionar mais facilmente a informação e a dar uma resposta


· O adulto pode colocar duas hipóteses como por exemplo “Gostaste mais de brincar na casinha ou de ouvir a história?”, explorando a partir daí: “Gostaste da história! Era sobre quê?


· Procurar saber antecipadamente as atividades que são realizadas na escola nesse dia, por forma a colocar perguntas mais concretas e orientadoras (exemplo: “Hoje foi dia de música e aprendeste a música de Natal. Como era? Ensinas-me?”)


· Poderá ser importante conversar sobre outros temas que não sejam necessariamente o dia da criança no jardim-de-infância, sobretudo quando não exista algo de especial e novo para contar. Tal como no mundo dos adultos, quando nos perguntam sobre o dia de trabalho que por norma é comum, dizemos “correu bem”. Porque é que a criança terá de dar mais pormenores em relação a um dia que para ela foi comum e que só “correu bem”?



Para crianças com dificuldades na comunicação e na linguagem, o recurso a pistas visuais poderá ser um importante facilitador ao desenvolvimento do diálogo, na medida em que auxiliam a evocação e organização sequencial das ideias, a verbalização, a compreensão das questões que lhe são colocadas e a manutenção do tópico. Neste âmbito, poderá selecionar uma fotografia relativa à pessoa, evento ou situação à qual a criança possa recorrer durante a conversa. Também pode criar um álbum de fotografias no sentido de ajudar a criança a recontar o sucedido. Poderá recorrer ainda a outras pistas visuais com o mesmo objetivo, tais como um desenho feito pela criança, o bilhete de um espetáculo, o chapéu de uma festa de aniversário, entre outros. O uso destas pistas visuais poderá ser importante também no contexto de jardim-de-infância nos momentos de “contar as novidades”, quer para a criança expressar-se, quer para os interlocutores saberem o que aconteceu e colocar perguntas em conformidade com o tópico introduzido pela criança. Sem este suporte visual, muitas vezes tentamos dar significado e colocar perguntas que não se adequam àquilo que a criança quer partilhar



Importa, ainda, salvaguardar que não é pelo facto de a criança não recontar um acontecimento, quando lhe é pedido, que exista uma dificuldade estabelecida ao nível da comunicação ou da linguagem. A criança pode não partilhar porque simplesmente não quer ou porque não aconteceu nenhum acontecimento significativo que justifique recontar. No entanto, a situação será preocupante se a criança não o quiser fazer nunca, nem espontaneamente, e se tiver dificuldades persistentes em expressar-se. Neste caso, a procura de ajuda especializada será essencial.


Lúcia Magalhães

Terapeuta da Fala

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