Birras ou sobrecarga sensorial? Nem tudo é “falta de educação”

Quantos de nós já empatizamos com a mãe que está no supermercado a tentar acalmar o filho que está deitado no chão a fazer uma “birra”? Ou com a família que está na mesa ao nosso lado do restaurante com o filho a gritar que não quer comer? Ou com a criança que no parque fica afastada a ver as outras crianças a brincarem ou a outra que corre, se pendura e balança e passa à frente de todos sem qualquer noção de espaço e de perigo? Muitas vezes ouvem-se comentários insinuando falta de educação e culpando os pais, ignorando o que pode estar efetivamente na raiz daquele comportamento. A verdade é que, por vezes, por mais que os pais se esforcem, estes comportamentos em nada dependem da falta de regras ou educação mas sim de processos muito mais complexos como, por exemplo, uma pobre modulação da informação sensorial!





É importante percebermos de que forma ocorrem estes processos complexos para que os pais, professores e educadores possam estar conscientes do que efetivamente está a acontecer com a criança, será uma birra ou uma sobrecarga sensorial? O processamento sensorial envolve muitas partes sequenciais, sendo uma dessas a modulação sensorial, que por vezes é negligenciada. Esta é uma função neurológica cujo termo é usado para descrever o processo cerebral de organização e regulação do grau, intensidade e natureza das respostas às informações sensoriais que chegam ao cérebro. Tipicamente, num processamento sensorial saudável, a modulação ocorre de forma automática, pelo que a criança conscientemente não pensa na maioria das sensações do seu próprio corpo e as que a rodeiam como sejam as luzes, os barulhos, cheiros, toque e movimento, e por isso responde às mesmas de forma graduada e adaptativa, ou seja adequadamente. No entanto, por vezes, o cérebro reage com um alerta importante em relação a um determinado estímulo. “Presta atenção a mim” ou “Cuidado, isto dói!”, como seja prestar atenção ao som da ventoinha em vez de à professora; ter medo de tomar banho de chuveiro; brincar com plasticina ou reagir batendo quando um amigo sem querer lhe toca no comboio para o almoço. As crianças que apresentam estas desordens podem ser classificadas como hiperreativas ou hiporreativas ou podem mesmo apresentar comportamentos de procura sensorial, dependendo da forma como processam os diferentes estímulos sensoriais.





Nas crianças hiperreativas, o cérebro regista sensações como sendo demasiado intensas, o que pode levar a criança a reagir de forma agressiva ou distrátil perante determinados estímulos sensoriais, uma vez que está a tentar prestar atenção a todos os estímulos provenientes do ambiente exterior, mesmo que estes não sejam úteis. Por sua vez, as crianças hiporreativas caraterizam-se por apresentarem um registo de sensações com menos intensidade do que o normal, o que faz com que não esteja a obter informação sensorial suficiente e por isso, precise de mais estimulação para alcançar o nível normal de atividade e alerta. As crianças que apresentam procura sensorial, podem parecer possuir um desejo insaciável de altos níveis sensoriais para melhor compreender o que se passa no seu próprio corpo assim como no ambiente que as rodeia, e por isso podem parecer hiperativas e agitadas.


A maior parte da informação sensorial do ambiente é irrelevante, para que possamos efetivamente prestar atenção às mensagens realmente importantes, como ouvir a professora. Mas se a criança se focar em cada pequeno pormenor de informação que a rodeia, vai estar constantemente distraída. Pode ser o cabelo a tocar na cara, a textura das roupas sobre o corpo, o barulho do giz a bater no quadro ou o som dos amigos a conversarem...Tudo passa a ter mais ou igual importância! Desta forma a modulação sensorial é um processo interno, que está programado para que possamos ignorar ou não pensar em determinadas informações sensoriais e assim mantermo-nos regulados e organizados. Quando a modulação sensorial não ocorre de forma típica pode levar a uma sobrecarga sensorial e consequentemente a criança pode ter dificuldade em se acalmar e em prestar atenção uma vez que os seus sistemas sensoriais não estão a funcionar adequadamente. Assim as crianças lutam para se manterem reguladas, têm problemas em controlar a intensidade e a natureza das suas respostas aos estímulos, podendo ser chamadas de agitadas, distraídas e/ou exibirem comportamentos considerados como desajustados como sejam as chamadas explosões, birras e irritação.

Desta forma, as festas de família, aniversários, férias ou mesmo uma simples ida ao supermercado podem tornar-se um pesadelo, as atividades da vida diária como tomar banho, lavar os dentes, vestir-se, um verdadeiro desafio, mesmo crianças inteligentes podem efetivamente ter mais dificuldade em aprender e realizar as tarefas na escola. Assim, se a sua criança apresenta alguns destes sinais de alerta, não a julgue ou puna, ficar de castigo e sem recreio não vai evitar estes comportamentos, estas questões não se prendem com falta de regras!


Inês Guedes

Terapeuta Ocupacional


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