A criança bilingue: mitos e verdades

Existe a ideia de que aprender uma nova língua numa fase precoce pode confundir a criança e atrasar o desenvolvimento da linguagem e da fala. Por outro lado, existe também a ideia de que ser bilingue contribui para um maior desenvolvimento cognitivo. O que é verdade? O que é mito? Falar duas línguas em simultâneo é benéfico ou prejudicial ao desenvolvimento da linguagem da criança?





Ser bilingue significa que a criança consegue falar mais do que uma língua. A aprendizagem das duas línguas pode decorrer de duas formas:


· Em simultâneo, quando a criança está imersa num contexto bilingue desde o nascimento e aprende as duas línguas em simultâneo, por exemplo quando os dois pais têm nacionalidades diferentes. Neste caso, a criança passa por todas as etapas do desenvolvimento da linguagem nas duas línguas, tal como uma criança que aprende a falar apenas uma língua.

· De forma sequencial, quando a criança aprende a segunda língua depois da primeira língua (língua materna) estar bem estabelecida, como observamos quando a criança é emigrante ou inicia a frequência num contexto escolar inglês, francês ou alemão. Neste caso, as etapas da aquisição e desenvolvimento da segunda língua têm algumas particularidades, tal como acontece quando um adulto aprende uma nova língua.


Esclarecida a distinção, passaremos à abordagem de alguns mitos e questões comummente associados ao bilinguismo.


O bilinguismo contribui para o desenvolvimento cognitivo da criança?

A investigação é unânime em relação ao benefício do domínio de duas línguas ao nível do desenvolvimento de competências cognitivas, resolução de problemas complexos, atenção, memória e pensamento criativo.


Aprender uma segunda língua em idades precoces prejudica a fala da criança na língua que já domina?

Pensemos numa criança italiana que inicia frequência num jardim-de-infância português. Naturalmente, a criança vai passar por um período em que fica mais silenciosa e utiliza mais gestos para comunicar, enquanto aprende e desenvolve a segunda língua que lhe é totalmente desconhecida.

Após esta fase, a criança também pode misturar as duas línguas ou ter dificuldade na pronúncia do português. Continua a ser fluente na língua italiana, a sua língua materna, e começa a dar os primeiros passos no português, podendo misturar palavras das duas línguas numa mesma frase ou cometer erros gramaticais. Gradualmente, este processo será superado e, quando não existem outros aspetos a interferir, a criança continuará a aprender e a desenvolver competências tornando-se fluente no português. A criança também será fluente na sua língua materna, o italiano, desde que continue a ser exposta a esta língua pela família.

Portanto, aprender uma segunda língua em idades precoces pode sim interferir no domínio e uso da língua materna, quando esta última não é mantida nem reforçada pelos interlocutores até porque “quem não aparece, esquece”.

A aprendizagem da nova língua pode reunir algumas desvantagens no caso em que a criança tem já dificuldades estabelecidas na linguagem e na comunicação ainda antes de aprender a segunda língua. Nestas situações, a necessidade da introdução de uma nova língua tem de ser refletida pela família, educadores e pelos profissionais que acompanham a criança, no sentido de avaliar a respetiva pertinência e funcionalidade.


Os pais devem começar a falar com a criança apenas na segunda língua para ajudar à respetiva aquisição?

Esta questão dirige-se à criança que aprende a nova língua a posteriori. Alguns pais tentam falar com a criança na segunda língua na tentativa de ajudar ao processo de aquisição. No entanto, não existe evidência científica que suporte o benefício dessa estratégia, pelo contrário. Falar com a criança numa outra língua que não a sua e a da sua família, poderá retirar qualidade e fluidez na interação e na relação entre a criança e os pais, que se quer o mais espontânea e natural possível.


O bilinguismo causa atraso no desenvolvimento da linguagem?

Ser bilingue não causa, por si só, atraso no desenvolvimento da linguagem. A criança que aprende duas línguas em simultâneo desde o nascimento poderá começar a falar mais tarde e ter um vocabulário menos rico em cada uma das línguas. Contudo, consegue desenvolver competências linguísticas dentro dos mesmos padrões e timings que a criança que fala apenas uma língua. Este processo será tanto mais organizado e favorável quanto mais natural e ajustada for a imersão linguística realizada pela família e demais interlocutores.

No entanto, este processo nem sempre decorre de forma organizada, além de que a criança pode reunir fatores de risco que podem interferir na aprendizagem simultânea das duas línguas, surgindo dificuldades ao nível da linguagem e da fala. Nestes casos, a realização de uma avaliação especializada por um terapeuta da fala é indispensável, quer para compreender as dificuldades da criança, quer para dar orientações à família e ao jardim-de-infância.


Lúcia Magalhães

Terapeuta da Fala

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