A chupeta: quando é que uma aliada se transforma em inimiga?

O uso da chupeta e o tipo de chupeta a introduzir são aspetos que habitualmente geram dúvidas à família antes do nascimento do bebé.


Em primeiro lugar, importa esclarecer que a sucção acontece sob a forma de reflexo, ainda no período gestacional, podendo ser observada em registos ultrassonográficos a partir da vigésima semana de gestação. A sucção pode decorrer de duas formas: nutritiva, através do aleitamento natural e/ou artificial (biberão) com o intuito de obter alimento; e não-nutritiva, que visa a sensação de bem-estar, satisfação, proteção e prazer ao bebé.





A sucção da chupeta é um dos hábitos orais não-nutritivos mais prevalente na criança. A introdução da chupeta visa principalmente confortar e tranquilizar o bebé, sendo unânime o seu benefício em relação a esta questão.

No que respeita a introdução da chupeta, a Associação Americana de Pediatria recomenda que deve ser introduzida a partir das 3-4 semanas e já quando o bebé realiza o aleitamento materno. Alguns estudos referem que a introdução precoce da chupeta, ou seja, antes do primeiro mês de vida, pode originar a diminuição da frequência do aleitamento materno. Tal facto parece acontecer devido a alterações no posicionamento da língua do bebé causada por mudanças nos movimentos da língua e da musculatura perioral utilizada na sucção da chupeta. Com esta alteração, o bebé não consegue realizar uma sucção adequada do leite, podendo resultar progressivamente na recusa do seio materno. Assim, a introdução da chupeta deve acontecer após este período e quando a amamentação natural está plenamente estabelecida.





No entanto, o uso da chupeta reúne uma série de vantagens consensuais na literatura:


· Ajuda o bebé e a criança a ficar mais calma, segura e regulada

· É um auxiliar importante em situações potencialmente geradoras de preocupação, insegurança, medo ou ansiedade no bebé

· Ajuda a criança a adormecer

· O facto de a chupeta ser descartável facilita o desmame, quando comparada com outros hábitos orais como a sucção do dedo e/ou da língua


Por outro lado, o uso da chupeta está associado a muitas desvantagens, principalmente quando o desmame não é realizado no período adequado:


· O uso prolongado da chupeta poderá tornar-se prejudicial ao correto desenvolvimento das estruturas ósseas do crânio, da implantação e oclusão dentária e do tónus orofacial, assim como da posição da língua, lábios e mandíbula, podendo originar alterações na respiração, mastigação, deglutição e fala (inclusive logo na fase da produção dos primeiros sons e palavras)

· A possível interferência no aleitamento materno, como abordado anteriormente

· A criança pode tornar-se emocionalmente dependente da chupeta

· A criança pode não desenvolver outras estratégias de auto-regulação emocional

· O uso da chupeta pode aumentar o risco de infeções do ouvido médio





Tendo em consideração estes dados, apresentamos algumas recomendações em relação ao uso da chupeta, procurando fazer dela nossa aliada nos dois primeiros anos de vida da criança:


· A chupeta não deve ser utilizada como estratégia única e infalível para acalmar a criança, recomendando-se o uso de estratégias alternativas

· Se o bebé não estiver interessado na chupeta, é recomendável não forçar esse hábito

· Se a chupeta cair da boca enquanto o bebé dorme, não necessita de ser colocada outra vez na boca

· É importante oferecer a chupeta ao bebé só depois ou entre as refeições

· Também é importante não utilizar a chupeta como estratégia para a introdução de novos alimentos e para a alimentação em substituição da colher, por exemplo

· Durante o sono, não é necessário colocar a chupeta na boca do bebé caso já esteja a dormir

· Procure assegurar que o posicionamento da chupeta é adequado. A chupeta não deve estar colocada lateralmente e apenas a tetina deve estar colocada dentro da boca

· A tetina da chupeta deve ser simétrica para que a sucção do bebé seja realizada também de forma simétrica

· No que respeita à chupeta mais adequada, a maioria da investigação defende o uso de chupetas ortodônticas. No entanto, o uso desadequado e contínuo da chupeta ortodôntica também pode originar alterações orofaciais tal como a chupeta dita convencional. Por este facto, os pais devem seguir as indicações dos fabricantes que indicam o material, forma e tamanho da chupeta mais adequado em função da idade do bebé

· A chupeta deve ser retirada até aos 2,5 anos de idade. A definição deste timming prende-se com a possibilidadede correção espontânea das alterações ósseas, musculares e funcionais derivadas do uso da chupeta. Outros autores defendem inclusive que a retirada da chupeta deve acontecer mais cedo, entre o primeiro e o segundo ano de vida pelas alterações que podem advir a nível ósseo e muscular orofacial. No entanto, existem questões no âmbito da regulação emocional da criança que devem ser tidas em consideração também, pelo que a retirada da chupeta entre o 1 e os 2 anos de idade pode ser, de facto, prematura


Respondendo ao título deste artigo, a chupeta pode ser, de facto, a nossa maior aliada ou a nossa maior inimiga. O impacto negativo do uso da chupeta será tanto maior em função da intensidade, duração e frequência desse hábito, e dos contextos em que a chupeta é utilizada ou permitida.


Lúcia Magalhães

Terapeuta da Fala

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